A MARGEM OCULTA

Nem toda experiência deseja tornar-se linguagem. Algumas existem precisamente onde a linguagem começa a falhar.

Antes de existir uma palavra, existe uma experiência. Nem toda experiência encontra imediatamente uma forma de ser dita. Talvez toda linguagem seja construída sobre um território silencioso. Aquilo que dizemos repousa sobre aquilo que ainda não sabemos nomear. O silêncio não é a ausência da linguagem. Às vezes, é o lugar onde ela começa. Algumas experiências permanecem por muito tempo sem um vocabulário capaz de sustentá-las. Não porque sejam incomunicáveis. Mas porque ainda aguardam uma linguagem. Há pensamentos que chegam antes das palavras. Há outros que continuam existindo depois delas. Nem toda compreensão acontece por meio do significado. Algumas acontecem por reconhecimento. Talvez o sublime seja apenas o nome provisório que damos às experiências que excedem nossa linguagem. Toda palavra inaugura um limite. Ela ilumina uma região. E deixa outra na sombra. O invisível não é aquilo que nunca poderá ser visto. É aquilo para o qual ainda não desenvolvemos uma forma de atenção. Algumas experiências recusam a representação. Ainda assim, deixam vestígios. Nomear não encerra uma experiência. Abre a possibilidade de compartilhá-la. Existem margens onde a escrita deixa de organizar o pensamento e passa apenas a acompanhá-lo. Nem toda investigação produz respostas. Algumas ampliam a capacidade de permanecer diante do desconhecido. Há presenças que nunca se deixam inscrever completamente. Mesmo assim, continuam convocando novas tentativas de escrita.

O LÉXICO — Algumas palavras não descrevem objetos, nem ações, nem sentimentos. Elas procuram tornar compartilháveis experiências que até então existiam apenas como intuições. O léxico é o lugar onde essas palavras começam a aparecer: não como definições, mas como aproximações.